Em 2010, Eme Viegas e Jaque Barbosa decidiram abrir um blog. O nome? Casal Sem Vergonha. Um espaço voltado ao comportamento, à sexualidade e aos relacionamentos, mas não qualquer espaço: um território de palavras ditas sem rodeios, sem pudor, sem medo. Ali, o amor e o desejo eram dissecados em categorias, sexo, amor, atitude, comportamento, como se cada texto fosse uma tentativa de compreender aquilo que pulsa, aquilo que arde, aquilo que insiste em existir mesmo quando a gente não sabe nomear. E foi um sucesso, desses que se tornam quase fenômeno: mais de 2,5 milhões de acessos mensais, como se milhares de pessoas buscassem, ao mesmo tempo, coragem para sentir.
Eu sempre quis escrever para o Casal Sem Vergonha. Sempre. Tentei algumas vezes, rascunhei textos, enviei dois ou três, talvez. Mas a verdade, e ela sempre encontra um jeito de se impor, é que eu nunca tive, de fato, a maturidade necessária para escrever com aquela honestidade brutal, quase desarmada. Faltava em mim essa coragem de ser íntimo em público, de transformar ferida em linguagem, de dizer sem filtro aquilo que a gente costuma esconder até de nós.
Desde 2021, tenho sido apenas uma pessoa. Só uma. Uma única pessoa tentando, à sua maneira torta e insistente, salvar o próprio mundo, às vezes à base de Bupropiona, Quetiapina e Lamotrigina; outras vezes à base de silêncio, de resistência, de um esforço quase invisível de continuar. Com laudos que tentam traduzir o indizível, Transtorno de personalidade borderline, Transtorno de ansiedade generalizada, episódios depressivos, eu fui aprendendo que existir, às vezes, é uma travessia longa demais para quem só queria repouso.
Então eu me mudei. E foi nesse deslocamento, geográfico, emocional, quase existencial, que eu conheci você. Você era diferente. Diferente de um jeito que não pede explicação, só presença. Alto demais, desengonçado demais, mas carregando uma inocência rara, quase deslocada do mundo. E era justamente isso, esse excesso de pureza, esse jeito desarmado de ser, que fazia toda a diferença. Você não tentava ser menos, não tentava caber. E, por algum motivo que ainda me escapa, isso me ensinava a respirar.
Eu vinha de relações tão tóxicas que, pouco a pouco, fui abandonando partes de mim pelo caminho. Deixei gestos, deixei palavras, deixei até mesmo a capacidade de demonstrar. Não me lembro ao certo, mas acredito que nunca te dei algo físico que pudesse permanecer, um objeto, um símbolo, algo que te lembrasse de mim quando eu não estivesse. Nunca fui o mais romântico. E não era por falta de amor, nunca foi. Era porque eu já tinha construído uma carapaça dura, quase doente, uma espécie de defesa que cresceu em mim como um câncer silencioso. E destruí-la… destruir aquilo que a gente constrói para sobreviver… é sempre mais difícil do que parece.
Talvez este texto seja uma das poucas coisas que posso, de fato, te dar. Pequeno, frágil, mas honesto. Você me ensinou o que é ser amado acima de qualquer condição. Me ensinou o que é ser visto, mas visto de verdade, com tudo aquilo que carregamos de luminoso e de sombrio. E, de alguma forma, eu também te vi. A reciprocidade existiu, inteira, mesmo que imperfeita.
Mas eu preciso ir.
Não porque eu queira. Não porque tenha havido traição. Não porque o amor tenha faltado. Mas porque a vida, em sua complexidade quase cruel, às vezes nos obriga a escolher caminhos que não gostaríamos de trilhar. Do outro lado, a quinze horas daqui, no centro da minha história, alguém da minha família precisa de mim. E eu precisei decidir. Não foi imediato, não foi simples, levou meses de silêncio, de dúvida, de dor. Mas eu fiz uma promessa, há muito tempo: nunca abandonar minha família. E há promessas que nos sustentam, mesmo quando nos quebram.
E, ainda assim, nunca me culpei tanto. Nem nos momentos mais intensos do Transtorno de personalidade borderline, nem quando fui deixado, nem quando a dor parecia insuportável, nada se compara a isso. Porque desta vez, sou eu quem parte. Sou eu quem causa a ausência.
Aprendi, com um custo que não desejo a ninguém, que amar também é deixar ir. Que o amor, quando é verdadeiro, não aprisiona, ele liberta, mesmo que isso doa. Se um dia houver retorno, talvez ainda haja pertencimento. Mas se não houver, então que reste o essencial: a liberdade de ser, a chance de encontrar felicidade, ainda que distante de mim.
Nunca te traí. Nunca menti. E, ainda assim, carrego a sensação amarga de ser um impostor, alguém que te fez amar, permanecer, se entregar, para então, numa sexta-feira qualquer, receber um telefonema e, no sábado, precisar encerrar tudo. Como se a vida, com sua lógica implacável, lembrasse que nem sempre escolhemos o que gostaríamos, mas apenas o que é possível.
Talvez eu nunca tenha sido a pessoa certa para você. Talvez isso seja verdade. Mas, enquanto estive ao seu lado, fui tudo o que pude ser, e, dentro das minhas limitações, fui o melhor de mim.
Pode ser que, em seis meses, você me esqueça. Que encontre alguém novo, alguém mais inteiro, mais leve, mais disponível. E talvez isso me doa, sim. Mas o que importa agora, o que aprendi, finalmente, é que amar alguém é desejar, acima de tudo, que essa pessoa seja feliz. Mesmo que essa felicidade não me inclua.
E sobre mim?
Eu sobrevivo.
Tenho sobrevivido a tantas coisas que nenhuma das histórias mais absurdas já contadas conseguiria traduzir completamente o que é real. E talvez seja isso: eu não vivo plenamente, não ainda. Mas sigo. Persisto. Insisto.
Porque, no fim, sobreviver também é uma forma de continuar amando.
